• Letícia Suher

O que vem antes de um possível "novo normal"?

Atualizado: 30 de Mai de 2020


Novo normal. Com certeza você já viu este termo sendo usado em muitos dos conteúdos que estão a circular por aí nesses tempos de pandemia. Por aqui, na verdade, a ideia é refletir sobre o que isto quer dizer, sem necessariamente traçar como o futuro será. Até porque, agora, não é hora para conclusões, não é mesmo? Estamos, antes de tudo, a tentar entender o que está a se passar. Por isso, quero dividir algumas percepções, sinais que este momento nos traz e quais oportunidades temos para sairmos melhor disso tudo. Vamos comigo?


Bom, primeiro de tudo, queria trazer um conceito que penso ser bem importante relembrar: V.U.C.A. Essas letrinhas dizem muito.


Fonte: Workana


Isso certamente te faz pensar no que vivemos hoje. De uma hora para outra, planos se desfizeram. Pessoas se viram trancadas em casa, longe de suas atividades sociais; empresas tiveram que correr para implementar o teletrabalho; profissionais precisaram rever suas rotinas inteiras com a invasão da vida profissional no ambiente doméstico; famílias estão 24h sob o mesmo teto; líderes e RH precisam provar, mais do que nunca, suas capacidades de tomar decisões e conduzir processos; Estados e organizações globais estão a tentar combater o vírus, salvar vidas e preservar a economia.


Assim mesmo, tudo junto, misturado e ao mesmo tempo.


Fica evidente, então, que a pandemia não é só um problema sanitário. Ele é um híbrido. Isso quer dizer que estão envolvidas questões políticas, económicas, sociais e culturais. O vírus, digamos assim, intensifica a volatilidade, a incerteza, a ambiguidade e a complexidade do mundo que já estávamos experimentando em todas essas áreas.


E o que isso tem a ver com o suposto "novo normal"?


Começamos do começo: o normal depende - muito - da perspectiva de quem está a falar. Partindo do princípio de que existem muitos "normais", não deverá haver somente um "novo normal". Diferentes condições sociais, contextos culturais, maturidade dos negócios, possibilidade de acesso a recursos, por exemplo, impactam diretamente na forma de viver, trabalhar, produzir. Portanto, quando falamos desse mundo repaginado que viveremos, acredito fundamental ter em mente de que ele não será igualmente experienciado por todos. Pelo menos não como uma grande "virada de página" entre um capítulo e outro da nossa história.


O que podemos enxergar, agora, é que a crise catalisou as características do mundo V.U.C.A. Pessoas, profissionais e empresas que já estavam, de alguma forma, familiarizados com esses atributos, provavelmente, terão menos dificuldade para encontrar meios de seguir em frente. E digo "menos dificuldade" porque, de fato, mudar exige esforço, seja ele mental, funcional ou estrutural.


Como a volatilidade e a incerteza se potencializaram, a certeza é a impermanência. Se as coisas já mudavam rapidamente, esse ritmo deverá ser mais acelerado. Neste sentido, duas atitudes me parecem necessárias: não resistir ao fluxo; e buscar entender esses movimentos. Aceitar que uma determinada ação não produz mais o mesmo resultado ajuda a canalizar energia para o que realmente importa; se informar e aprender novos conhecimentos aumentam as chances de trilhar novos caminhos.


Sim, acompanhar reports e buscar atualização é importante. Mas, aí entram a ambiguidade e a complexidade - ambas tensionadas justamente pelas diferentes perspectivas que falamos acima. São as variáveis em jogo. Pessoas e empresas têm experiências próprias e, portanto, reações também. Aqui, enxergo a premissa do relacionamento mais transparente e próximo, seja com stakeholders, com a comunidade e nas relações em geral. Estar aberto ao diálogo contribuirá para entender as necessidades reais, bem como unir forças em prol de um bem comum. É praticar a empatia mesmo, sabe, a partir de uma troca real e genuína - e não na suposição do que a outra parte espera. Afinal, de discurso, o mundo está cheio.


Estou a ler artigos e relatórios, assim como você, imagino. Também vejo um impulso para a transformação digital, uma oportunidade para criarmos mais redes e atuarmos de forma coletiva e compartilhada, além de um promissor cenário para marcas e empresas que vejam valor em ter valor. Momentos como o que vivemos atualmente nos permitem repensar e redirecionar nossas ações e afetam, sim, nossa forma de ver o mundo, de consumir, de interagir. Só não podemos esquecer de que existem diferentes graus, narrativas de vida, pontos de vista, experiências e variáveis para a construção um único e exclusivo "novo normal". Relembrar os conceitos do mundo V.U.C.A, pode nos ajudar a compreender que para viver os próximos meses - e até, quem sabe, anos - vamos precisar nos adaptar sem apego. Vamos precisar aprender a desaprender. A ter um olhar atento ao outro. A respeitar pluralidades. E refletir sobre nossas ações como pessoas e como organizações. E entender que normal não, necessariamente, precisa ser definido de um único jeito.




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