• Letícia Suher

Por que um tempo para não fazer nada?

Ontem era janeiro. Um piscar de olhos e cá estamos, fevereiro, daqui a pouco março, abril, inegavelmente estes novos tempos chacoalhou as nossas rotinas. Vimos a nossa vida pessoal se misturar com a nossa vida profissional a partir do trabalho de casa. Estamos reaprendendo a organizar o dia, se encontrar no tempo. Por isso, o artigo de hoje propõe uma pausa. Um momento para que eu aqui e você aí possamos, juntos, pensar sobre nossa relação com o tempo. Começo com uma pergunta: qual foi a última vez que você se permitiu o ócio? Guarde esta resposta e vem comigo.


Sempre correndo, mas para onde?


Segundo o filósofo Byung-Chul Han, vivemos na sociedade do cansaço, em que o nosso desempenho e performance ditam as regras. Não podemos parar, porque, se pararmos, estamos fazendo algo errado e, numa suposta competição com o outro, vamos ficar para trás. Nessa lógica da produtividade a qualquer custo, o cenário não poderia ser outro: a OMS (Organização Mundial da Saúde) alertou para a depressão ser a doença mais comum no mundo em 2030 e incluiu a Síndrome de Burnout na lista de doenças como um “fenômeno ligado ao trabalho”. Em dados, os afastamentos por problemas psicológicos geram perdas de R$ 800 bilhões no mundo.


O status “ocupado” se tornou símbolo de status. Mas com os acontecimentos de 2020, a saúde mental entrou de vez para as pautas das empresas e se tornou uma preocupação real para as pessoas. O excesso de informação, a dependência da tecnologia, a hiperaceleração nos deixa exaustos, sobrecarregados e, ainda que enxerguemos isso, resistimos em desacelerar. Estamos sempre correndo, mas correndo de quem e para onde?


Talvez, essa seja a primeira pergunta a ser feita para compreender o conceito holândes “Niksen” que vem a seguir. Acompanhe!


Tempo para fazer nada, você tem?


Nosso tempo está sempre à serviço de algo. “Fazemos isso para aquilo”. Mas e se apenas nos rendermos à contemplação, ao descanso, sem ter exatamente um porquê? Aí entra o conceito holândes Niksen. Ele nos convida a descobrir a “arte de viver”.


“Devemos ter momentos de relaxamento, e o relaxamento pode ser combinado com atividades fáceis e semi-automáticas, como tricô”

Ruut Veenhoven, sociólogo pioneiro no estudo científico da felicidade.


Calma, não quer dizer que você tenha que fazer tricô para praticar o Niksen. Na verdade, ele pode ser visto com um estilo de vida que reduz a ansiedade e o estresse ao criar mais espaços de relaxamento em nossas vidas. É se entregar ao ócio, ao descanso. E isso pode ser simples: leitura, caminhada, música, meditação, observação. O que importa é se desconectar para se conectar com seus desejos e não com o que tem uma carga de “dever” em sua rotina.


Doreen Dodgen-Magee, psicóloga que estuda o tédio e escreveu o livro “Desenvolvido! Equilibrando Vida e Tecnologia em um Mundo Digital ”, em entrevista para o The New York Times, compara Niksen a um carro cujo motor está funcionando, mas não vai a lugar nenhum.


Ócio nosso de cada dia


Além de ser uma prática que cuida da nossa saúde mental, o ócio, curiosamente, também melhora a produtividade e nos permite ser mais criativos. Segundo Sandi Mann, psicóloga da University of Central Lancashire, na Grã-Bretanha, o ócio total tem um efeito direto em nossa capacidade de criar.


“Deixe a mente buscar seu próprio estímulo. Quando você começa a sonhar acordado e a divagar, é quando você tem mais chances de obter a criatividade.”


Abraçar nossos desejos, com consciência, contribui para a memória, para aprimorar a capacidade de atenção e raciocínio, promove reflexões e conexões que geram aprendizados e ainda melhora nosso humor e nossa conexão com os outros.


Mesmo sabendo de todos esses benefícios, talvez, o principal desafio seja acreditar que, sim, você merece. No início, você pode precisar de muita disciplina para ser fiel aos seus momentos de relaxamento e, pode ser até mesmo desconfortável - afinal, uma vozinha vai ter alertar para a “perda de tempo”. Mas insista e assuma seu ócio. O importante é ter atividades que lhe proporcionem prazer, nada mais.


Para inspirar a comunicação


Aqui, quero lembrar de um outro artigo do #BlogDoJorge, em que falo sobre os perfis dos consumidores do futuro e lá vemos que essa exaustão e a rejeição à lógica da produtividade afeta nosso comportamento e, portanto, nossa relação com marcas e com o consumo. Por isso, encerro este conteúdo com alguns exemplos de brands que estão olhando para este movimento e adotando uma postura mais “slow”.


É o caso da D2C Burrow, uma marca de sofá que lançou uma campanha baseada nesse conceito. Assista ao vídeo a seguir:




Outro exemplo bem interessante é a Pattern Brands, um conjunto de marcas criadas para ajudar as pessoas a aproveitarem suas vidas cotidianas. Inicialmente, o grupo tem dois pilares: Open Spaces, que tem a proposta de ter um espaço para você fazer o que ama; e a Equal Parts, que utiliza métodos e ferramentas para que cozinhar seja menos sobre limpar e mais sobre curtir o processo.


Se sua marca está conversando com público que se conecta com esse olhar para o estilo de vida, de desacelerar e viver de forma mais equilibrada, é importante criar uma comunicação que se alinhe a esses propósitos.


Então, depois de tudo isso, volto à pergunta lá do começo: qual foi a última vez que você se permitiu o ócio? Que tal trazer uma nova perspectiva para a vida e para comunicar sua marca? Compartilhe aqui sua opinião e vamos aprender juntos. ;)


Abraços!

Sr. Jorge


Fonte: The New York Times | The Case for Doing Nothing

Tendência 2020: Niksen e o poder do “não fazer nada”

Pode cultivar o ócio, sim!


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